Notas sobre A Náusea de Sartre

O efeito do jazz em A Náusea de Jean-Paul Sartre

Resumo

  • O objetivo do estudo é analisar o papel da música no romance "A Náusea" de Jean-Paul Sartre.

  • Análise detalhada:

    • Primeira parte: descrição da apresentação da contingência na obra.

    • Segunda parte: explicitação do efeito que a música tem sobre o personagem Antoine Roquentin.

  • Evidência central: possibilidade de subjugação temporária da contingência através da música, numa busca de "fuga salvacionista".

  • Palavras-chave: Sartre, Náusea, Contingência, Absurdo, Música.

Introdução

  • "A Náusea" apresenta a música "Some of These Days" como um êxtase quase místico diante do mal-estar do herói Roquentin frente à total gratuidade da existência.

  • A análise não é etnomusicológica, nem focada na filosofia da música, mas sim na função fenomenológica da música na narrativa.

  • Pergunta central a ser respondida: A música consegue subjugá-la a contingência?

  • O estudo utilizará passagens do romance para mostrar a música como um meio de dissipar a náusea vivenciada por Roquentin.

  • Também serão apresentadas posições de Sartre sobre música e sua experiência com jazz americano.

O percurso nauseante de Antoine Roquentin

  • Premissa de "A Náusea": a existência humana é caracterizada por contingência e absurdo, sem sentido essencial prévio.

  • A descoberta da contingência e do absurdo é um processo progressivo que altera a relação de Roquentin com o mundo e com os objetos.

    • Citação de Bornheim: A experiência de Roquentin é ontológica, afetando mais que a existência humana particular.

  • A relação do sujeito com o mundo é desvelada como uma experiência de transformação de autor e objeto.

    • Notável mudança na percepção de Roquentin sobre objetos cotidianos.

    • Citação de Sartre: O sentimento de transformação é expresso através de ações confusas ao tocar objetos comuns, como cachimbo e garfo.

    • Roquentin admite mudanças súbitas e desagradáveis em sua percepção.

Metamorfose da percepção
  • Comentário de Silva: A confiança depositada nas coisas se desmorona, produzindo instabilidade na percepção ontológica.

  • Expectativa de permanência das coisas e do sujeito no tempo é criticada; o mundo se revela como invariável.

  • O projeto de escrever a biografia do marquês de Rollebon inicialmente proporciona um sentido à vida de Roquentin, mas esse sentido se esvai.

  • Citação de Sartre: A narrativa falsifica a vida, pois tenta dar um arranjo a eventos inexplicáveis.

    • A ideia de necessidade da narrativa se dissolve, levando Roquentin a uma compreensão de eventos atomizados.

    • Passageira a desistência do projeto biográfico como reconhecimento da ausência de sentido na vida.

A experiência do absurdo
  • Roquentin percebe a vida como uma sucessão de atos desarticulados, sem priorização evidente de um acontecimento em relação a outro.

  • Silva (2004): O tempo é a única necessidade reconhecível, embora eventos não tenham uma justificação necessária.

  • Desejo de Roquentin em transformar a vida em uma narrativa condutora demonstra sua frustração com a realidade.

  • Citação de Sartre: A narrativa não é um reflexo fiel da vida real, mas uma forma de tentar encontrar sentido em uma existência caótica.

  • Roquentin mergulha numa experiência de náusea que precede a consciência do absurdo.

Náusea e a percepção de realidade
  • Roquentin conclui que a existência é absurda, repleta de eventos que não se conectam logicamente.

  • Citação de Sartre: "A Náusea dissolui o significado do real."

  • A dissolução do significado se traduz pela incapacidade de conectar palavras e objetos, levando Roquentin a um estado de solidão frente ao mundo.

  • Citação de Sartre: "As palavras se dissipam e suas referências desaparecem, deixando o Ser nu e desprovido de sentido."

  • A experiência negativa radical da Náusea mostra a incapacidade do sujeito de dar sentido à realidade, criando um desconforto constante.

O absoluto e o setor da consciência
  • A consciência se revela vazia, desprovida de conteúdo.

  • Roquentin observa que seu "Eu" se esvazia, perdendo seu lugar na existência devido à contingência.

  • Citação de Sartre: "A consciência é anônima, entre paredes desertas."

  • A consciência é unificada pelos atos, mas quando o mundo dissolve-se, a unidade do Ego também desfalece.

  • Reconhecimento da fragilidade do Ego e sua busca por estabilidade.

Consequências do percurso
  • A contingência revela que a realidade conhecida é apenas aparente; as palavras não se relacionam de forma necessária com o que nomeiam.

  • Roquentin chega à conclusão: "A existência não é necessidade, é simplesmente estar aqui."

  • A Náusea ainda se apresenta como um estado de gratuidade dos entes.

  • A vida, ao ser vista como excessiva, provoca esvaziamento da consciência.

A efêmera suspensão da contingência

  • Música "Some of These Days" segue como um alívio momentâneo à Náusea.

  • A sensação de segurança que Roquentin sente quando ouve esta música demonstra a sua percepção de um sentido temporário no mundo.

  • Citação de Sartre: Música traz um estado de êxtase, permitindo que o absurdo da existência seja temporariamente esquecido.

  • Ao ouvir jazz:

    • Experiência estética do mundo se transforma, estabelecendo uma necessidade e todo um sentido que parecia ausente.

  • Contudo, essa experiência é efêmera; ao cessar a música, o absurdo retorna.

  • Citação de Sartre sobre jazz: "A alegria e calmaria sazonal em momentos desestabilizados."

Reflexões finais sobre a música
  • A música é vista como um meio de sobrevivência ao absurdo, uma forma de resistência ao sentimento de instabilidade e imprevisibilidade.

  • Pode a música realmente subjugá-lo? A despreocupação eterna é abordada através da reflexão de Sartre.

  • Apesar das experiências estéticas oferecidas pela música, o retorno à condição de contingência é inevitável.

  • Citação de Bornheim: "Não há salvação pela música, mas uma suspensão provisória da consciência."

Conclusão

  • "Some of These Days" emerge como uma forma de salvação, um simbolismo de resistência à Náusea.

  • A música gera um temporário horizonte de sentido e necessidade, proporcionando uma negação da existência indesejada.

  • Contingência e a frágil estrutura da narrativa do ser humano se fazem presentes, mas questiona: existe uma forma de escapar do absurdo? A resposta se refere a um paradoxo: a música pode querer ser uma salvação, mas sua eficácia é breve e limitada.

  • Reflexão final: O caráter evitativo da contigência nunca pode ser totalmente superado pela arte, segundo Sartre; apenas atenuado momentaneamente pela experiência estética.

Referências Bibliográficas

  • Barata, André. "La Nausée e a ontologia de L’Être e le Néant."

  • Bornheim, Gerd Alberto. "Sartre: existencialismo e metafísica."

  • Donald, James. "Some of These Days: Black Stars, Jazz Aesthetics, and Modernist Culture."

  • Noudelmann, François. "The philosopher’s touch: Sartre, Nietzsche, and Barthes at the piano."

  • Rossatto, Noeli Dutra. "Sartre místico: existência e liberdade em A náusea."

  • Sartre, Jean-Paul. "A náusea."

  • Silva, Franklin Leopoldo e. "Ética e literatura em Sartre: ensaios introdutórios."